Angelo Moreira da Costa Lima

Biografia

Nossa intenção ao escrever algo sobre a vida do renomado cientista, protótipo de homem bom, de uma afabilidade contagiante, simples e modesto, um exemplo de dignidade e saber, legando ao seu país uma obra extraordinária no campo da Entomologia, não foi outra, se não a de despertar nas novas gerações que se iniciam no estudo dos insetos, conhecer sua obra, seguir seu exemplo e mostrar para urbi et orbi que o Brasil teve um dois maiores entomologistas de todos os tempos.

No começo de sua vida, Pontes de Miranda imaginava que o importante era "ter". Verificou mais tarde que o importante não era "ter" mas "ser". Depois com o passar do tempo veio a idéia de que nem "ter" nem "ser" eram realmente vitais, e que o importante era o "poder". O tempo passou, e ele sentiu que o vital era "saber". Posteriormente chegou a conclusão que o "ter, o ser, o saber e o poder" não realizavam o sentido imaginado, o importante era o "fazer". O humilde gigante que foi o Prof. Costa Lima só se preocupava com o "fazer", porque só fica o que se faz.

Ângelo Moreira da Costa Lima nasceu em 29 de junho (dia de São Pedro) de 1887, num prédio situado na então Praça da Aclamação, hoje Praça da República no Rio de Janeiro, Brasil. Filho de Valeriano Moreira da Costa Lima e Rosa Delfina Brum de Lima.

Com o falecimento do pai em 1897, Ângelo passou abruptamente para miséria. Seu pai, apesar de ter sido gerente do Banco Rural e Hipotecário, ganhava o bastante para viverem folgados, mas nunca pensou no futuro da família, quando morreu, a mulher e três filhos tiveram que se separar para sobreviver. Dois filhos foram para casa de famílias amigas. Com 10 anos de idade, Ângelo, o caçula, ficou com sua mãe, mulher de mãos delicadas que para sobreviver e sustentar o filho foi trabalhar caseando botinas e costurando para fora, tendo inclusive que vender as jóias para pagar as dívidas deixadas pelo marido.

Em 1899, com 12 anos de idade, no quarto ano do curso de Bacharelado do Colégio Paula Freitas, começou a ganhar dinheiro ensinando leitura, escrita e contas a alunos avulsos.

Aos 17 anos em 1904, depois de ter completado o curso seriado no Colégio Paula Freitas, graças a pensão que seu padrinho dava para sua educação desde a morte de seu pai, Ângelo entrou para a Faculdade de Medicina. Aos 19 anos, descobriu o amor e se uniu a Alice (sua primeira esposa), com quem teve três filhos, Ângelo, Luiz e Nair. Cedo teve de trabalhar para sustentar a família, trabalhava à noite como conferente e revisor do jornal Correio da Manhã, ganhando 300 mil réis por mês, o que representava um bom ordenado para aquela época.

Em 1906, começou a escrever apostilas das aulas para os colegas, em 1907 publicou apostila de Anatomia e Fisiologia Patológica, em 1908 ele editou as apostilas de Médico-Cirúrgica, que eram vendidas aos colegas por preço acessível, e apesar dos calotes a venda das apostilas muito lhe ajudou.

No começo, houve tempo em que Ângelo catava níqueis para ir de bonde do local onde morava para a Praça da República, para assistir aula de morfologia de mosquito, como estudante de medicina se preparando para o concurso de auxiliar acadêmico do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, aberto por Osvaldo Cruz. Quando não tinha dinheiro ia mesmo a pé, parando na porta dos restaurantes baratos para sentir o cheiro da comida, somente para sentir. Sim, passei fome muitas vezes.

Ainda no ano de 1906, Osvaldo Cruz (o grande sanitarista brasileiro) abriu concurso para auxiliar acadêmico do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, onde se inscreveram mais de 100 acadêmicos para 17 vagas, no qual Ângelo foi classificado em primeiro lugar. Ele precisava desesperadamente daquele emprego, pois havia saído do jornal onde era revisor, e tinha além da mulher um filho para sustentar. Foi este o ponto de partida para que o maior entomologista do Brasil e um dos maiores do mundo começasse a olhar diferente para os insetos que, muitos anos depois iam ficar indissoluvelmente ligados ao seu nome. Jamais mencionou qual foi o primeiro inseto a entrar na sua vida, mas com certeza, só pode ter sido o mosquito transmissor da febre amarela que para melhor estudá-los, Ângelo coletava os anofelinos na baixada fluminense no Rio de Janeiro.

O sonho do jovem Costa Lima era ser cirurgião, o que lhe desviou e marcou nova trilha na sua vida foi o eminente cientista Osvaldo Cruz, que tinha como grande qualidade a de saber formar equipe. Com a conclusão do concurso, reuniu o pessoal, solicitou ao secretário ler o resultado e disse: Este menino fez prova de catedrático, não de estudante.

Ângelo foi contratado com o salário de 200 mil réis por mês, que não chegava para as despesas com a família. Por essa razão ele produzia e vendia as apostilas para os alunos da Faculdade de Medicina.

No tempo da Faculdade, conta Luís seu filho, ele morava num quarto de pensão na Rua Machado Coelho. Na taquigrafia que criou para produzir suas apostilas, criou igualmente uma simbologia própria para a anatomia e fisiologia, até para os professores com seus cacoetes de expressão. Recebeu o apelido (alcunha) de “Libreto de opera” e “Rigoleto” porque vivia carregando os libretos. Possuía uma caligrafia fabulosa, desenhos muito bons e um pequeno mimeógrafo muito bom.

Um dia Ângelo foi avisado de que Osvaldo Cruz queria falar com ele. Dirigiu-se ao gabinete com medo, pensando que ia ser posto para fora, mas, em vez disso foi recebido como nunca esperava. Osvaldo Cruz apertou a mão do rapaz tímido, mandou entrar em seu gabinete, na Inspetoria Federal da Febre Amarela, e disse: Não assisti a seus exames, mas recebi informações sobre eles. Se você continuar com esse entusiasmo pela Entomologia, ainda será um nome conhecido em todo Brasil, fato que o fez se decidir pela Entomologia. A partir daquele dia, a vida do Professor Ângelo Moreira da Costa Lima foi registrada passo a passo nos arquivos das instituições científicas nacionais e estrangeiras, nos anais dos congressos, nas sociedades particulares, nas repartições públicas, e em qualquer lugar onde se estuda os insetos.

Em 21 de setembro de 1910, conclui o curso superior, colando grau de Doutor em Medicina. Vindo depois a pedir demissão do cargo de Auxiliar Acadêmico, do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, para fazer parte da Comissão organizada por Osvaldo Cruz, de combate à Febre Amarela no Estado brasileiro do Pará, como Inspetor Sanitário. Naquela ocasião, foi escolhido para dirigir o serviço de combate à doença nas cidades de Santarém e Òbidos. Nestas cidades teve a oportunidade de fazer uma série de observações sobre a biologia dos mosquitos, especialmente do Aedes aegypti.

De volta ao Rio de Janeiro em 1913, levava com ele a intenção de estudar para se candidatar ao concurso para a cadeira de Entomologia Agrícola e Hidrologia Aplicada da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, mas desistiu ao tomar conhecimento de que um ex-companheiro da comissão era candidato ao mesmo concurso.

Foi nomeado em agosto de 1913, preparador extranumerário da cadeira de Anatomia Médico-Cirúrgica e Operações da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde ocupou o cargo por pouco tempo sem remuneração.

Com a intervenção de Dr. Osvaldo, ele conseguiu o lugar de professor na Escola Agrícola da Bahia, e resolveu reiniciar os estudos de Entomologia Agrícola, preparando-se para o concurso a ser realizado no início do próximo ano, onde chegou a fazer inscrição. Ao se aproximar a data do concurso, foi informado de que o mesmo seria adiado sine die por determinação do Ministro da Agricultura, que queria nomear interinamente um técnico para regência da nova cátedra.

Em 1914, assumiu a Cátedra de Entomologia da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, sem concurso por não ter sido possível compor uma banca para examinar o homem considerado sumidade em conhecimentos de insetos, onde criou o estudo da Entomologia Agrícola no País. Logo depois, passou a exercer o magistério na Escola Nacional de Agronomia (ENA), onde ficou até ser eleito Professor Emérito da Universidade Rural do Brasil, aposentado por força da compulsória devido a ter completado 70 anos de idade em 29 de junho de 1957.

Na nova sede da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, em Pinheiro no Estado do Rio de Janeiro, foram reiniciados os cursos onde o Professor ministrou a sua primeira aula de Entomologia no dia 3 de junho de 1916.

Em maio de 1916, o Prof. Costa Lima juntamente com um grupo de pesquisadores fundaram a Sociedade Brasileira de Ciências, hoje Academia Brasileira de Ciências.

O Prof. Costa Lima fez uma longa excursão em 1917 pelos Estados Nordestinos, viajando pelas zonas algodoeiras do litoral ao sertão, a fim de estudar a ocorrência e o comportamento da "lagarta rósea" (lagarta rosada do algodão).

De 1918 à 1920, dirigiu o Serviço de Combate à Lagarta Rósea do algodoeiro, onde teve oportunidade de percorrer o Nordeste e o Estado de São Paulo, locais de ocorrência da praga. Quando da sua passagem pelo Nordeste, ele mesmo contava do fato ocorrido, entrando sozinho pela Caatinga para coletar material entomológico para suas pesquisas. Alheio a tudo, de repente se viu cercado pelo grupo de Lampião, um famoso cangaceiro (bandido do sertão nordestino), não perdendo a calma identificou-se e manteve conversa amistosa com os cangaceiros, saindo numa boa.

No laboratório do Prof. Costa Lima, só se pensava em trabalho. Conversa de assunto que não fosse científico era logo interrompida e deixada para a mesa de almoço ou jantar.

A luta entre o homem e os insetos começou muito antes da aurora da civilização, continuou sem cessar, até os tempos presentes e continuará, sem dúvida, enquanto a raça humana existir.

O Instituto Osvaldo Cruz, de gloriosa história, centro científico respeitado e honrado em todas as partes do mundo, atualmente com 102 anos de fundação, nasceu da fusão do Instituto de Manguinhos e do Instituto Soroterápico Federal, repartição municipal fundada em 1900 pelo Barão de Pedro Afonso, médico e cirurgião de reputação firmada, introdutor da vacina jeneriana e do sôro antidifitérico no Brasil. Citar as pesquisas e os pesquisadores que trabalharam em Manguinhos é o mesmo que relatar a própria história da pesquisa biológica no Brasil. A vida do Prof. Costa Lima como pesquisador, deve ser compreendida e enquadrada dentro deste espírito admirável de Manguinhos. Trabalhou na sua sala modesta, com seu microscópio para melhor estudar os insetos, com dinamismo, respeito humano e honorabilidade. Os insetos eram guardados em coleções, identificados, ordenados e fichados. A coleção na sala Costa Lima tinha cinco mil e duzentas gavetas muito bem cuidadas. A formação científica do mestre da Entomologia brasileira foi adquirida na Escola de Manguinhos, criada pelo incentivador da ciência e da medicina experimental no Brasil, o Dr. Osvaldo Cruz, de quem recebeu grande influência na sua mocidade. Foi com Osvaldo Cruz que Costa Lima se iniciou no método experimental e adquiriu os fundamentos científicos que o norteou em toda sua vida. O culto da verdade, a paixão pela ciência e a precisão de seu trabalho experimental e didático, foram suas características principais.

O Instituto Biológico de Defesa Agrícola do Ministério da Agricultura criado em 1922, para onde o Prof. Costa Lima foi nomeado chefe da Seção de Vigilância Sanitária Vegetal, era uma nova instituição que pela primeira vez no Brasil, estabelecia as bases científicas para a defesa sanitária da nossa agricultura. A missão foi árdua, o ambiente era pouco esclarecido, especialmente em matéria científica. Costa Lima desempenhou com competência a função que fôra confiada, preparou a Seção para os trabalhos de preservação das lavouras contra as pragas, doenças exóticas e para estudar as medidas de controle das pragas existentes nas plantações. Mais tarde foi chamado pelo então Ministro Juarez Távora para organizar o Instituto de Biologia Vegetal, resultante da fusão do Jardim Botânico e do Instituto Biológico de Defesa Agrícola, foi quando, naquela oportunidade, deu uma bela lição sobre administração de estabelecimento científico.

Em 1923, Roquette Pinto via realizado seu sonho, com a fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, onde Costa Lima durante alguns anos foi locutor gratuitamente.

O Prof. Costa Lima era um homem que sabia compreender todos, mesmo aqueles que nada sabiam. Era poliglota, procurava fazer tudo convergir para o seu mundo, o maravilhoso mundo dos insetos ao qual ele se dedicou como um sacerdócio. Acreditava em tudo que se dissesse, muito inteligente mas infantil para muitas coisas e não acreditava que as pessoas pudessem falsear os fatos. Vivia só para estudar, não teve tempo de ser criança, nunca empinou papagaio (pipa), nunca andou de bicicleta e nem foi a um jogo de futebol. Fumava muito, tendo um dia que deixar o fumo por causa da saúde. Possuía uma memória prodigiosa, com incrível capacidade de trabalho. Mantinha correspondência com especialistas do mundo inteiro, jamais deixava de responder uma carta, fosse de quem fosse, profissional da Entomologia, estudante ou uma pessoa qualquer.

Dizia que nossa fauna de ovo a adulto é muito pouco estudada, as pessoas que gostam da natureza deveriam conhecer melhor as espécies por metros quadrados, há grupos completamente virgens com os quais nunca ninguém mexeu. Temos inúmeras florestas esperando com os ramos abertos pelos pesquisadores. Ele nunca se preocupou com a divisão da Ciência em pura e aplicada, mas vivia mais do que a exercia, com o entusiasmo dos que sabem e sentem que contribuem para o bem estar da humanidade. Viveu sempre como um ser puro sem couraça, preocupado com seus insetos. Era uma máquina de trabalho, sensibilíssimo diante de qualquer visita, usava macacão zuart (de mescla), no desenvolvimento das pesquisas chegava a dar trabalho para quinze pessoas ao mesmo tempo, esforçava-se sempre além de suas forças, é como se tivesse por lema quem se poupa nunca atinge a plenitude. Passou por todas as rudes provas a que é submetido um homem nos tempos atuais. E venceu a todas essas provas com o seu trabalho constante e fecundo.

Segundo o Prof. Costa Lima, o assombroso no mundo dos insetos é o grande número de representantes, cerca de um milhão de espécies, com capacidade de adaptação que vai dos pólos gelados e aos mais variados climas e circunstâncias, como podem estar em poços de petróleo ou nos lugares mais absurdos e inesperados, realizando proezas de adaptação tão miraculosas que abandonam até os próprios olhos quando precisam enfrentar escuridão permanente, ganhando eficiências complementares, suprindo deficiências circunstanciais.

Em tamanho também variam de forma surpreendente. Para que se tenha uma idéia aproximada da força de certos insetos, basta dizer que um ser humano altamente treinado terá comparativamente duas vezes e meia menos capacidade de despender energia. A energia do ser humano é curtíssima quando solicitada em alto grau, a do inseto pode se estender por horas. Há insetos que comem bananas, que podem agarrar e matar um rato ou uma cobra. Algumas espécies podem erguer 800 ou 900 vezes seu próprio peso. A pulga comum pode saltar mais de cem vezes seu próprio comprimento. Em eficácia biológica os insetos deixam o homem longe, seu aparelho respiratório, por exemplo, pode fornecer oxigênio centenas de vezes mais depressa que os nossos pulmões. O aparelho circulatório pode inverter sua marcha diante de um obstáculo eventual, é de estarrecer ao leigo. Existe espécie africana que põe 43.000 ovos por dia e numa estação do ano duas moscas comuns podem se multiplicar em 19x1019 de descendentes.

Os insetos representam 70% de todo reino animal, e eles são os principais concorrentes do homem no usufruto e domínio do planeta. Seu aparecimento data de 400 milhões de anos enquanto o homem é de 2 milhões de anos. Eles conviveram com os dinossauros.

Uma pergunta formulada ao Prof. Costa Lima: Existem insetos úteis? A resposta foi precisa, em grande quantidade. Passou a dissertar, há insetos que são aproveitados para fins ornamentais, haja visto as borboletas cujas asas são aplicadas em quadros, os élitros de certos besouros que encastouados em ouro são usados como jóias. Outros insetos são utilizados para fins industriais, como as cochonilhas que produzem a bela cor do carmim (melhor corante natural). As abelhas produzem mel, geléia real, cêra, polinizam as plantas e ainda seu veneno tem uso medicinal. As galhas ou cecídias que produzem tanino. Há insetos que são aproveitados para fins medicinais, tais como as cantáridas e outros coleópteros vesicantes. Até para alimento do homem servem certos insetos, como o costume de se comer no Norte e Nordeste do país, iças ou tanajuras assadas.

Os gafanhotos também são citados como comestíveis na África. No México, gafanhotos e percevejos das plantas são comercializados nos mercados públicos como alimento. Certas lagartas são manjar delicioso para nossos indígenas. O bicho do coco babaçu também são petiscos.

O bicho da seda fia o fio com o qual se fabricam os mais belos tecidos. O Prof. Costa Lima descreve a origem da seda na lagarta, nas glândulas cericígenas, de ambos os lados do tubo digestivo das lagartas e por fora dele estão duas tripinhas enroladas e de aspecto brilhante. Estas duas tripinhas são glândulas produtoras da seda. É aí que se origina a seda. O diâmetro dessas tripinhas é muito desigual, o seu comprimento chega a ter 30 centímetros. Essa tripa tem três partes bem distintas: uma longa, de 20 cm, mais ou menos com 1 mm de diâmetro, a que se segue a parte média, a mais central que é o reservatório da seda e por fim uma parte anterior que é o tubo mais fino ligando a glândula ao aparelho fiador, a fieira, situada na cabeça do bicho. A parte média segrega um “cimento,” “grês” ou “cericina”, substância em estado semi líquido que por força de contração do corpo da lagarta, na época própria, sai pela fieira. Os dois fiosinhos segregados são reunidos na trompa da seda e saem soldados para a fieira que fica no lábio inferior da lagarta, aí estão outras duas glândulas, comparáveis às glândulas salivares do homem, chamadas glândulas de Filippi, cujo papel é lubrificar o canal da trompa de seda e de revestir o fio que sai, com uma espécie de verniz. Na época da sua origem na China, a seda tinha tanto valor, que seu preço era seu peso em ouro.

Há certos insetos que dão excelente adubo, é o caso dos acridídeos (gafanhotos), que já foram aproveitados para tal fim depois de praguejarem em nuvens a América meridional.

E, finalmente uma grande importância econômica a ser utilizada entre os insetos é o controle de pragas por meio de seus inimigos naturais, o controle biológico, que é feito usando-se uma espécie para controlar a população de outra espécie que constitui praga de plantas cultivadas. É campo vasto a ser estudado e pouco desenvolvido em nosso país. Muitos inimigos naturais das pragas são pequenos besouros conhecidos por joaninhas.

Era um hábito comum do professor sentar no chão para estudar, espalhava os volumes para consulta ao seu redor, vestido de macacão (roupa de operário), sendo muitas vezes confundido com pessoal de campo. Certa vez, usando macacão como de costume, foi falar com o Reitor, e ao chegar na secretaria disse ao chefe de gabinete que queria falar com o Reitor. O rapaz que lhe atendeu achou muito estranho, um trabalhador de campo se dirigir ao Reitor. Ele insistiu e pediu que anunciasse seu nome. Tamanha foi a surpresa do jovem funcionário quando informou ao Reitor o fato e disse o nome da pessoa. O Reitor imediatamente levantou-se da cadeira e veio à porta para receber o ilustre Professor dizendo meu mestre, a que devo a honra da visita?

Ele era respeitado pelo mundo inteiro, portador de uma infinita capacidade de admiração que, às vezes, seu pudor de sentir além da medida aparente justa procurava esconder, como escondia a data de seu aniversário, por não julgar motivo de festa para ninguém. Foi ele quem identificou a broca do café, que tanto problema causou a cultura no Estado de São Paulo. Foi membro do Conselho Nacional de Pesquisa.

Sempre muito esforçado, lecionou inglês e latim para aluno particular e de curso preparatório. Fez tese de doutorado para muita gente (ainda estudante), que tirava distinção. Nunca se negou a ajudar quem lhe procurasse. Identificou insetos para muitos pesquisadores do Brasil e de fora do país. Foi assim que o Pesquisador do Instituto de Pesquisas Agronômicas de Pernambuco, Mário Bezerra de Carvalho, conheceu o Prof. Costa Lima, mandando insetos de Pernambuco para serem identificados, o que despertou o interesse do mestre pelos insetos do Nordeste. Dos insetos remetidos para identificação uma espécie nova foi descrita com nome científico de Margarodes carvalhoi (em homenagem a Carvalho), um homóptero coletado em raiz de cana-de-açúcar por Bezerra de Carvalho em Pernambuco. Posteriormente Costa Lima ofereceu estágio a Mário, para melhorar seus conhecimentos em Entomologia, na Escola Nacional de Agronomia. Depois de algum tempo como estagiário, já tendo demonstrado seu interesse pelos insetos, Mário foi convidado pelo Professor para ser assistente interino na cadeira de Entomologia na ENA, passando então a fazer parte do estafe formado por nomes como, Aristóteles Godofredo de Araújo e Silva, Cincinnato Rory Gonçalves, Dário Monteiro Galvão e outros. Foi um sonho realizado pelo pesquisador pernambucano. Mas, não ficou só por aí, Mário pediu ao Professor permissão para lhe acompanhar em suas atividades de pesquisas no Instituto Manguinhos. O pleito foi concedido de bom grado, e lá ele teve oportunidade de conhecer renomados pesquisadores assim como Lauro Travassos, Hugo de Souza Lopes (especialista em dípteros) e muitos outros. Depois de algum tempo voltou para seu Estado de origem e prestou concurso para a Cátedra de Entomologia da Universidade Rural de Pernambuco, atualmente Universidade Federal Rural de Pernambuco, foi aprovado e passou a exercer a Cátedra.

Em 1967, o Prof. Mário Bezerra de Carvalho, publicou a primeira edição do Glossário de Termos Técnicos de Entomologia, onde fez uma singela homenagem ao seu mestre e amigo o Prof. Costa Lima, na primeira página do trabalho com foto e os seguintes dizeres: além da homenagem que pretendemos ao emérito professor, uma outra intenção tivemos, qual seja, a de procurar despertar, com esse gesto, nas novas gerações, que se iniciam no campo da biologia e, particularmente, da entomologia, o interesse em procurar conhecer, outrossim, a biografia de um homem que servirá de estímulo àqueles que se sentem desencorajados a enfrentar os óbices, as canseiras da vida, para chegarem ao cimo da montanha, e atingir a meta colimada. Isto porque, o Professor Dr. Ângelo Moreira da Costa Lima, mundialmente conhecido, pela sua cultura, iniciou sua vida, ainda jovem, sofrendo as maiores privações, vencendo toda vicissitude, para chegar a diplomar-se em medicina e grajear a fama de que era detentor, como eminente cientista.

O Laboratório de Entomologia do Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco recebeu o nome de Laboratório de Entomologia Prof. Costa Lima.

Um fato marcante na vida do eminente cientista que lhe proporcionou muita alegria, conta Peracchi, professor de Entomologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, foi quando ainda estava hospitalizado se recuperando de grave ataque cardíaco, foi informado que havia sido escolhido para Patrono da turma de concluintes do Curso de Agronomia de 1961, o que agradeceu com uma carta onde tratava os concluintes por jovens e queridos amigos, de onde transcrevemos alguns parágrafos: Sempre dizia aos meus amigos que desejaria morrer, dando uma aula, rodeado de meus alunos.

Entretanto, como é costume dizer-se, o homem põe e Deus dispõe. Não fui satisfeito nesse meu desejo. Concederam-me o título de Professor Emérito da Universidade, honra excelsa para um professor, porém, depois dessa homenagem, tive de me aposentar por septuagenário e não mais pude obter o que mais me atraía na Universidade: o contato permanente com os estudantes de todos os cursos. Ficou, assim, possibilitada apenas, a minha frequência regular ao Instituto Osvaldo Cruz, casa a que mais devo minha formação científica, hoje Departamento do Ministério da Saúde, onde iniciei meu Curriculum de funcionário público como Auxiliar Acadêmico do “Serviço de Prophylaxia da Febre Amarela” em março de 1907.

Como vêem, não podia imiginar que, agora, já há meses afastado do convívio universitário, surgisse uma turma de Agronomandos, muitos dos quais nem me conhecendo pessoalmente, fossem ver no velho Costa Lima a figura mais digna para ser seu Patrono na bela profissão que em inspirada ocasião escolheram.

A resolução de vocês, meus diletos amigos, que muito me sensibiliza e dignifica, evidencia e pureza e independência do espírito dos Agronomandos de 1961, que, como bem disse Aix, não se deixando afogar nas ondas de intenções dúbias e inconfessáveis escolheram quem se lhes afigura merecedor de sua gratidão.

A todos vocês, portanto, mais uma vez, muito obrigado pelo bem que me fizeram, tornando-me convicto de que o Brasil ainda continua a ter na mocidade acadêmica homens que seguramente o farão, em futuro próximo, bem maior e mais independente do que é hoje.

Com os votos de um porvir grandioso, pleno de venturas, abraça-os afetuosamente o seu Patrono e sincero amigo Costa Lima.

Havia no Ministério da Agricultura, os chamados Cursos de Aperfeiçoamento e Especialização, burocracia imposta a Agrônomos e Veterinários para promoções em determinada letra. Estes Cursos foram uma rotina que apesar do nome pomposo se limitava a uma rápida revisão do currículo profissional. O professor reuniu um pequeno grupo de seus antigos alunos mais destacados e deu um curso realmente de especialização. O resultado foi a publicação de valiosos trabalhos originais que demonstraram cabalmente a notável condição do mestre e a capacidade dos jovens profissionais. Na Cátedra da Escola de Agronomia reuniu uma valiosíssima coleção de insetos, principalmente de pragas e nela trabalhou com grande eficiência.

O professor Costa Lima vivia angustiado, desejoso de ver muitos seguirem sua rota. De certa forma sofria com o fato do individualismo indesejado, tão poucas as oportunidades, na época, de manter, a longo prazo, gente que pudesse ser devidamente peneirada e encaminhada, na proporção e na quantidade desejada, nas sendas da Entomologia.

Costa Lima foi um homem extraordinário. Se tivesse buscado o brilho fácil, teria todas as recompensas materiais a que seu valor humano fazia jus. Contentou-se na modéstia de Manguinhos e da Universidade Rural do Quilômetro 47, lutando, trabalhando e divulgando os resultados de suas pesquisas. Com tantas coisas para fazer, ele dava a impressão de que no dia seguinte, de corpo alquebrado, não teria condições de retornar às suas atividades. Entretanto, sempre no horário previsto assumia o batente com a disposição de um jovem que está começando. Ele jamais buscou nome, glória ou lucros. Seu vôo era o dos besouros e a sua sinfonia era a dos insetos. Cresceu gradualmente como pesquisador e professor, em importância e em influência.

Uma coisa que deixava muitos atônitos, era sua quase ingenuidade em relação a sua grandeza. Uma vez alguém lhe disse, que ele era na ocasião o maior entomologista do mundo.

- Não - protestou ele zangado-. Tem fulano. - Mas fulano já morreu – argumenta. - Não importa. Tem beltrano. - Também já morreu - lhe recorda. - Mas, então, tem ainda o sicrano. - Morreu no ano passado - esclarece.

Ele faz um exame de consciência sumário e concorda a contra gosto.

- Então só tem ele mesmo.

Ângelo ficou fascinado pelo verso do poeta brasileiro Cassimiro de Abreu Meus Oito Anos, porque fala de borboleta e na infância sempre há uma borboleta.

Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, Da camisa aberto o peito, -Pés descalços, braços nus – Correndo pelas campinas Á roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis.

Luiz (seu filho) e Carlos Alberto (seu aluno), compreendiam como ninguém, o sonho de Cassimiro, sua lepidopterosidade, sua lepidopterosaudade. Também eles corriam atrás de borboletas azuis, na aurora da vida que os anos não trazem mais.

O professor mesmo arrumava o seu gabinete (assim contam as pessoas com quem convivia). Na porta da sua sala tinha pregado um modesto cartão com seu nome. Certa vez foi visto areando (limpando) a panela de banho-maria, com jeito de servente e vestido em seu macacão azul. Por ocasião de uma mudança, pediu ao motorista um balde com água. Este se fez de surdo. O professor, como era de costume, não se zangou. Encolheu os ombros e pensou: você não quer ir, naturalmente, porque é doutor, então eu vou. Muitas vezes, indo a biblioteca a procura de livros de inseto, achava o setor desarrumado, pedia ao Diretor a chave e permissão para no final de semana ir arrumar a seção de Entomologia da biblioteca. Aposentado, como Professor Emérito, ia na Universidade Rural, trabalhar nas suas pesquisas, aí centralizava livros, assistentes e a dedicação do servente Gilson, que dizia o senhor nunca me deu um de seus livros, Costa Lima respondia é altamente especializado, meu filho. Você não precisa dele para nada. Quem precisa é fulano que é estudante, pesquisador.

Segundo se conta, o professor era um ingênuo pornográfico. Os palavrões lhe brotavam como coisa de menino malcriado. Carlos Lacerda, desenhista e seu amigo, responsável pelas boas ilustrações dos seus trabalhos, um dia disse vim para desenhar uns bichos e aprendi todos os palavrões do mundo.

O acanhado laboratório em que durante toda vida trabalhou, comenta Olympio da Fonseca, local onde mal podiam se mexer ele e seus colaboradores, em pouco se constituiu em centro de estudos e de consulta para quantos desejavam iniciar-se sob a orientação do mestre na investigação entomológica, e também como lugar obrigatoriamente visitado por entomologistas de todo o Brasil e muitos estrangeiros. Frequentador assíduo dele era o grande entomólogo e biologista de renome internacional, o franciscano, glória científica de sua ordem, Frei Tomás Borgmeier, fundador da Scripta Entomológica e da Revista Brasileira de Entomologia, periódicos de reputação em todo mundo. De vez em quando recebia visita do monge Beneditino Dom Bento Pickel, professor de Entomologia da Escola Superior de Agricultura de Pernambuco.

Segundo Heitor Grillo, incentivador da obra gigante do Prof. Costa Lima Insetos do Brasil: ele se caraterizava no ensino pelo método e erudição. Perfeito na exposição teórica e nas demonstrações práticas, procurou sempre esgotar o programa, abrangendo todos os aspectos da entomologia agrícola. Partindo da parte geral para a especial, racionalizou o ensino de sua cátedra, marcando, assim uma nova fase no ensino dessa matéria no Brasil.

O interesse despertado por suas aulas entre os alunos foi sempre grande. E esse interesse não se limitava, apenas, as aulas teóricas e práticas. Extendia-se às excursões para coletas de insetos e organização de coleções que seriam, depois, incorporadas às Escolas. As suas lições serviam de base para formação dos atuais entomologistas e fitossanitaristas do Ministério da Agricultura e Secretaria de Agricultura dos Estados, que atuam nos serviços de defesa sanitária vegetal, como sentinelas de proteção à nossa agricultura.

Esse homem extraordinário permaneceu sempre simples e bondoso, modesto na sua vida e disposto a trabalhar até o último instante. Seu exemplo de tenacidade, de integridade, de austeridade, devia ser apontado a todos os estudantes de hoje e do futuro. Sua glória foi conquistada pelo trabalho constante, uma vocação realizada com todo o rigor, acima das atrações superficiais do mundo, das seduções fáceis de riqueza e dos postos públicos. Só essas glórias são autênticas e dignas. Os jovens devem refletir sobre isso.

Na época em que a Legislação Federal proibia a acumulação de cargos públicos efetivo, o Prof. Costa Lima foi obrigado a abrir mão de um de seus dois cargos, de Pesquisador ou Professor. Optou em largar o de Pesquisador, mesmo assim continuou trabalhando em Manguinhos sem receber vencimentos. Passou a ser o entomologista mais barato do Brasil, perdeu o emprego mais não deixou de trabalhar.

Em 12 de setembro de 1960, o Prof. Costa Lima, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, pelo então Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo, Prof. Ulhôa Cintra, em sessão solene no Salão Nobre da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba. A concessão do título aconteceu no Campus da USP da cidade de Piracicaba, por conta da aproximação que existia entre ele e os professores de Zoologia e Entomologia da ESALQ.

Para criar Escola, deu curso de especialização de onde nasceram nomes de projeção e real valor: Heitor Grillo, Álvaro Barcelos Fagundes (fundador do IPA, em Pernambuco), Antônio Guimarães, Jalmirez Gomes, Jerfferson F. Rangel, Aristóteles Silva, Cincinnato Rory Gonçalves (que lhe substituiu na Cátedra de Entomologia), Adriano Peracchi (Prof. e Reitor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) dentre outros. Gente do melhor gabarito, que havia vencido.

Costa Lima, que nunca soube o que era ter medo, um dia tremeu, ao assinar o livro de ouro da Real Sociedade Entomológica de Londres, livro só firmado por meia dúzia de vultos do maior gabarito, percebeu ali a assinatura da Rainha Vitória, fundadora da Sociedade. Conta seu filho Luiz.

Carlos Alberto Seabra, discípulo dileto de Costa Lima, comenta: ele foi um homem único com extraordinário sentido de brasilidade. Era um brasilista, carregava o torrão natal. Nos congressos sua palavra pesava. Brasil falando. Brasil respeitado.

Certa noite, no Alto da Boa Vista no Rio de Janeiro, estávamos jantando com Costa Lima e meus familiares, quando reparei numa mosca e observei: olhe, essa mosca aí não é doméstica. Porque? indagou ele. Está batendo o par anterior de pernas diferente. Costa Lima levou-a à Manguinhos. Era realmente uma espécie nova. Ele descreveu e dedicou-me: Carlos Albertoi.

Segundo Olímpio da Fonseca: Em Costa Lima, os meios cultos do Brasil e os meios científicos do estrangeiro, em que seu nome era conhecido e respeitado, como o do maior entomologista do Brasil, se habituaram a ver somente o cientista que, em meio século de atividade, deixou uma obra monumental, testemunha dos vastos e aprofundados conhecimentos que possuía de sua extraordinária capacidade de trabalho. No apreço e na estima em que era tido o investigador e o cientista, o homem, a pessoa humana de Costa Lima foi um tanto esquecida por aqueles que, ao contrário de nós, os seus companheiros de Manguinhos, não tiveram a oportunidade de com ele conviver diuturnamente durante vários decênios. Estes puderam conhecer a outra face de uma das personalidades que mais honraram o nome do Brasil em sua época.

Para mostrar até onde ia seu escrúpulo exagerado, basta dizer que, ao receber seus vencimentos depois de praticamente inválido e aposentado, bufava de revolta, quase ódio. Estou sem fazer nada! Recebendo sem fazer nada!

Calculem, um homem que tinha dado sua vida inteira ao bem comum, a seu povo, à humanidade, não se considerava no direito de usufruir, ao menos, nos seus direitos de idade, doença e aposentadoria. Achava pouco o muito que tinha feito.

Como entomologista, Costa Lima dominou o campo da sistemática dos insetos. O grupo dos coleópteros ocupou grande parte de suas atividades. Cerca de quarenta trabalhos foram publicados, especialmente sobre a família dos curculionídeos, onde adquiriu fama mundial. A ele se deve a exata determinação científica da broca do café, ocorrida em 1914 nos cafezais paulistas. A comissão científica organizada e composta dos ilustres cientistas, Artur Neiva e Navarro de Andrade, era integrada também por Costa Lima. A comissão chegou a conclusão de que se tratava de grave praga, que ameaçava a maior riqueza de São Paulo e do Brasil e aconselhou ao Governo a adoção imediata de medidas acauteladoras. Entre outras medidas, foi então criado o Instituto Biológico de São Paulo, que trazia a incumbência, dentre outras atribuições, a de estudar, em primeiro lugar a praga do cafeeiro e os meios para controlar.

Todos os entomologistas que trabalharam no Brasil tiveram substancial apoio do Prof. Costa Lima. Muitos deles foram seus alunos na Escola de Agronomia ou nos cursos do Instituto Osvaldo Cruz. Continuaram por muitas vezes por carta ou pessoalmente, a lhe pedir auxílio para resolver seus problemas ligados a suas atividades profissionais de pragas das plantas cultivadas. A estas constantes solicitações ele fazia absoluta questão de atender.

O trabalho de Pedro Bloch sobre a vida de Costa Lima, publicado pelo Conselho Nacional de Pesquisas, em 1968, cita o que John Lane lhe havia contado: que ao realizar um curso de Entomologia na Universidade de Cornell, onde havia vários estudantes de língua espanhola, os professores, com frequência, se referiam ao privilégio que tinham os alunos por poderem ler, com facilidade, a obra do Prof. Costa Lima. A qual estava escrita em português do Brasil.

Quando, na Universidade Rural do Rio de Janeiro o aluno entrava no primeiro ano, aprendia logo a respeitar a figura do catedrático de Entomologia. Havia a lenda de que era a cadeira mais difícil. É que o professor era meticuloso e exigente. Era mais vaidoso de sua obra do que dele mesmo.

Costa Lima se preocupava com seu físico. Praticava os exercícios do manual Meu sistema de Muller, todo santo dia por quarenta minutos. Tinha corpo de atleta, dando-se ao luxo de destacar qualquer músculo de seu corpo. Não perdia uma queda de braço. Se dispunha sempre a essa quase infantil demonstração, ele que era tão desprendido de vaidades em seus feitos científicos. Conta seu filho Luiz.

Os trabalhos desenvolvidos por Costa Lima de experiências sobre a respiração das larvas de mosquitos, quando da sua participação na comissão chefiada por Osvaldo Cruz, para extinção da febre amarela em Belém do Pará, foram interrompidos em 1913, e por serem considerados por ele próprio de grande importância, foram retomados no período de 1927 à 1961. Eram clássicos, e é nele que se baseia em grande parte o trabalho de combate às larvas. Os mosquitos lhe interessaram durante toda sua vida; sobre eles publicou 22 trabalhos. Publicou chaves para determinação das espécies de maruins e flebótomos. As pulgas também foram objeto de seus estudos, chegando a publicar um catálogo sobre elas.

De agosto de 1935 a julho de 1937, ele publicou na revista o Campo, artigos sobre 19 ordens de insetos, que revistos e ampliados, deram origem ao primeiro tomo dos insetos do Brasil. Dois artigos sobre hemípteros foram publicados ainda em 1937, o que fez o professor perceber a necessidade de produzir uma obra de grandes proporções. Foi esta a origem da grande obra escrita em 12 volumes com grande sacrifício e que lhe rendeu o prêmio Moinho Santista. O sacrifício foi sem dúvida pelos aborrecimentos que lhe custaram cada volume. Ele fazia questão que fossem publicados pela Escola de Agronomia, pelo orgulho que tinha em ser professor. Queria a impressão pelo Ministério da Agricultura e que os exemplares não fossem vendidos, porque ciência não é para se vender e sim para ser dada a quem dela queira fazer uso. Ficou muito constrangido quando soube que muitos volumes de sua obra eram vendidos no cebo (livros de segunda mão).

Contemplado com o Prêmio Moinho Santista, que recebeu em 1956, teve a oportunidade de viajar pelo exterior, indo à Europa e América do Norte, visitando e conhecendo pessoalmente seus amigos de outros países, muitos deles até então só conhecia por correspondência, e os Centros de Estudos Entomológicos.

Em carta ao filho Luiz comentou: Caí na asneira de trazer de Lisboa, encomendado da Alemanha, um microscópio Zeiss, em duas pequenas caixas, que vieram no camarote. Comprei por cerca de cem contos. Na Alfândega aprenderam tudo, embora constasse de meu passaporte estar viajando em missão de estudos da Universidade Rural. O Inspetor da Alfândega acha que eu devo pagar oitenta contos.

Na faixa dos trinta anos ficou diabético, e muito produziu até os setenta e cinco anos, tudo a custa de dieta que ele raramente quebrava, exercícios e insulina que ele mesmo aplicava. Tivesse onde tivesse, na hora certa injetava a agulha na barriga. Carregava no bolso agulha, seringa e tudo que precisava para não deixar de tomar o remédio na hora certa.

Perfil de Costa Lima segundo Heitor Grillo, citado por Pedro Bloch: “Forte, cultivando mesmo o esporte para manter sua juventude de caráter sólido, reto e cristalino, e com grande firmeza moral e coerência nos atos. A pontualidade é um dos traços característicos de sua vida. Pontualíssimo em todos os seus deveres. Pontual nas aulas, no laboratório e na Biblioteca. Pontual nas respostas aos seus consulentes e colegas de ofício, que recorrem ao Mestre, pedindo esclarecimentos e informes sobre os problemas da Entomologia. À pontualidade no trabalho, junta-se o seu labor científico diário, que não cessa com o tempo. Ao contrário torna-se cada vez maior a sua atividade na investigação científica. Ao lado dessas características, Costa Lima apresenta aquela que, desde a sua mocidade, fez a sua grandeza: sua vocação para o ensino e a pesquisa. Completando o seu perfil, assinalamos o seu desprendimento pelas coisas materiais. Sua vida está cheia de atos que atestam constância nesse desprendimento.”

Como desprendimento, citaremos apenas um dos mais recentes: o Presidente do Conselho Nacional de Pesquisa, ofereceu-lhe todos os meios necessários para dedicar-se exclusivamente a investigação científica. Costa Lima só aceitou o mínimo necessário para seu trabalho e de seus auxiliares.

Na vida do Prof. Costa Lima, houve diversos períodos bem característicos:

  • O primeiro representado pelos seus estudos de medicina e sua vocação para a histologia.
  • O segundo se situa na Amazônia, que marca seu primeiro trabalho de entomologia.
  • O terceiro se passa no Laboratório de Entomologia do Ministério da Agricultura.
  • O quarto período se inicia na Cátedra de Entomologia Agrícola da antiga Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária.
  • O quinto período se passa em Manguinhos, como pesquisador e se confunde com o período anterior.

O maior entomologista do Brasil e um dos maiores do mundo não tinha insetos em sua casa. Suas coleções para estudo estavam na Universidade Rural do Rio de Janeiro e parte no Instituto Osvaldo Cruz.

Dos três filhos da primeira esposa, teve seis netos, cinco meninos (os cinco gafanhotos do Luiz). Ana, foi a segunda esposa de sua vida, com quem terminou os seus dias.

Em 1956, Costa Lima foi contemplado, por consenso unânime do grande júri, com o Prêmio da Fundação Moinho Santista. Recompensa justíssima ao eminente cientista patrício por sua dedicação integral ao estudo e a pesquisa dos nossos insetos.

A família Campos Seabra do Rio de Janeiro, instituiu na Academia Brasileira de Ciências o Prêmio Costa Lima, a ser distribuído de dois em dois anos e destinado a premiar pesquisador brasileiro, que pelos seus trabalhos, tenha contribuído de modo notável para o conhecimento da nossa entomofauna e para o progresso da Entomologia no país.

O primeiro Prêmio Costa Lima foi concedido ao ver Frei Tomás Borgmeier. A entrega foi realizada em seção solene na Academia no 18 de dezembro de 1962. O Prof. Lauro Travassos proferiu o discurso de saudação, do qual transcrevemos um pequeno trecho. O verdadeiro homenageado desta noite é o Prof. Costa Lima, e a Academia honrando-o, honra a si mesma, pois o Prof. Costa Lima e isto talvez nem todos saibam é o único membro fundador sobrevivente daquela plêiade de cientistas brasileiros que em 1917, lançaram as bases desta Academia. Meus aplausos ao nosso consócio Dr. Carlos Alberto Seabra e ao nosso Presidente Dr. Artur Moses pela idéia feliz da instituição deste Prêmio que não somente será um estímulo para gerações futuras, mas antes de tudo faz justiça aos méritos do eminente Pesquisador brasileiro, cuja vida inteira foi dedicada ao estudo dos nossos insetos, principalmente dos que têm importância para a agricultura e para a medicina.

O Prof. Costa Lima, tornou-se com o correr do tempo uma autoridade em Entomologia, contemplado com as maiores distinções que o mundo conferiu a um sábio de real valor, foi agraciado com a Grã-Cruz que o Brasil estabelece como excepcional prêmio ao verdadeiro mérito.

Ele, nos seus quase oitenta anos de vida (77), cerca de cinqüenta dedicados ao ensino e a pesquisa, ele próprio relacionou 337 trabalhos, sem contar pequenas notas que posteriormente foram coligidas pacientemente pelo seu aluno e colaborador, que ele considerava como um filho, Dr. Carlos Alberto Seabra.

Além da sua monumental obra Insetos do Brasil, com 12 volumes, outros trabalhos de destaque foram os Catálogos dos Insetos que Vivem nas Plantas do Brasil, em três edições. A primeira publicada nos Arquivos da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, respectivamente nos volumes 6 e 8 de 1922 e 1927. A segunda edição foi publicada na revista O Campo em 1930. A terceira edição publicada pela Escola Nacional de Agronomia (Ministério da Agricultura), em 1935. No prefácio ele comenta: o presente trabalho é uma nova edição ampliada dos Catálogos publicados anteriormente. No atual Catálogo foram incluídos todos os insetos até maio de 1935 (inclusive), que vivem na fase adulta ou larval, em plantas do Brasil.

Publicou em 1946, o catálogo das pulgas do mundo com o título: Pulgas. Bibliografia, catálogo e animais por elas sugados. Na série Monografias do Instituto Osvaldo Cruz Nº 4, no prefácio ele comenta: Sempre que tínhamos de determinar qualquer pulga, sentíamos a falta de um catálogo recente e atualizado que nos facilitasse essa tarefa rotineira. Daí tentarmos organizar um trabalho desse gênero relativo às pulgas da região neotropical.

Na sua monumental obra Insetos do Brasil, ele próprio comenta: se não tivesse o firme propósito de completar o livro e há muito teria desistido de o fazer, isto em parte pelas dificuldades que surgiam quase sempre no momento de se imprimir qualquer volume do trabalho. Cita sua gratidão ao professor Heitor Grillo.

Os comentários prosseguem: Tais, dificuldades (as da impressão dos volumes) tornaram-se, porém insuperáveis, a ponto de me parecer impossível a publicação do 11º tomo, finalmente conseguida pelos ingentes esforços do então Diretor da Escola, Prof. Carvalho de Araújo. Os originais do presente tomo escritos quando já me achava com a visão francamente arruinada, foram entregues ao Diretor da Escola de Agronomia em agosto de 1960.

Quando já se encontrava com a visão francamente arruinada, foi visto que homem maravilhoso era, praticamente cego, continuava estudando e produzindo com lentes imensas.

Os seis primeiros tomos foram custeados exclusivamente pela verba de publicações da Universidade Rural do Rio de Janeiro. Os demais foram publicados com a valiosa ajuda do Conselho Nacional de Pesquisa.

Em 1962 ao publicar o 12º tomo de sua obra Insetos do Brasil (himenópteros, 2a. parte) inicia o prefácio dizendo: Em dezembro de 1938, graças ao interesse do Prof. Heitor Grillo, então diretor da Escola Nacional de Agronomia (Universidade Rural), foi publicado o primeiro tomo desta obra, a ser distribuída gratuitamente àqueles que se iniciam no estudo da Entomologia.

E prossegue mais adiante, deveria publicar ainda 2 volumes sobre Hymenoptera e Strepsiptera e mais 4 sobre Diptera. Todavia, com 75 anos de idade e com o organismo em franca decadência, que poderia escrever realmente de interesse sobre tais grupos de insetos, mesmo sem contar com óbices análogos aos que se me apresentavam por ocasião da edição de um novo tomo? Devo, portanto, interromper o plano que pensava realizar, quando imaginei em dar aos estudiosos do Brasil um tratado resumido sobre todas as ordens de insetos.

Ele finaliza justificando "non sum qualis eram".

A obra completa, os 12 tomos de Insetos do Brasil, foram publicados no período de 1938 a 1962 e considerada incompleta pelo grande autor. Com esta publicação, ele criou a Escola de Sistemática dos insetos para a América do Sul, com os grupos divididos e separados criteriosamente por caracteres bem definidos.

Os livros publicados pelo Prof. Costa Lima, não possuíam apenas valor didático. Ele aproveitava a oportunidade para divulgar trabalhos que deixara de publicar. Eram uma riqueza com uma infinidade de notas e observações de grande importância.

Nos 40 anos jubileu de magistério do Prof. Costa Lima, foi feita uma homenagem, onde o Dr. Heitor Grillo, incentivador da sua obra, pronunciou o discurso de onde transcrevemos o trecho: Esta homenagem partiu dos moços, seus discípulos, que dão assim numa época de egoísmo e indiferença uma bela lição de civismo. A essa homenagem associou-se o mundo científico brasileiro, através das personalidades e entidades mais representativas, dentre as quais o Conselho Nacional de Pesquisa e o mundo agronômico do país, pela Sociedade Brasileira de Agronomia, que foi em outros tempos consagrado Agrônomo honoris causa, pelos relevantes serviços prestados à agricultura nacional.

O grande Entomologista brasileiro Ângelo Moreira da Costa Lima morreu a 20 de maio de 1964, no Hospital dos Servidores do Estado.

Última declaração de Ângelo Moreira da Costa Lima:

"Sou irmão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência (Ver o livro da Ordem nº 22 de Recepções, fls. 54 ou minha caderneta de irmão, guardada na gaveta superior da minha escrivaninha, presente do Dr. Waldemar Padrenosso).

Creio pois ter direito a enterro de última classe, no cemitério da Ordem, a ser efetuado pela mesma.

Não possuo bens de qualquer espécie, nem depósitos em bancos ou caixas econômicas, exceto a escrivaninha acima mencionada e pequena quantia (24 cruzeiros) guardados na Caixa Econômica do Rio de Janeiro.

O meu anel de Doutor em Medicina, presente de minha mãe, há muitos anos dele me desfiz, para solver compromisso.

Quanto a minha biblioteca: em dezembro de 1949, em cartório, assinei documento vendendo-a ao Dr. Carlos Alberto Campos Seabra, que deve ter em seu poder cópia dessa transação."

Rio de Janeiro, 1 de setembro de 1961.

No final dos anos sessenta, a Empresa dos Correios do Brasil, prestou uma justa homenagem ao grande entomologista com um selo que tinha seu busto estampado.

Um país que produziu um Costa Lima tem do que se orgulhar. A Entomologia espera por muitos jovens que queiram a ela dedicar-se com amor, seguindo tão fecundo exemplo.

Datas:

Data de Nascimento:
29/6/1887
Falecimento:
20/5/1964

Area de Atuação:

Sistemática
Angelo Moreira da Costa Lima